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LP’s da trilha sonora de “Ainda Estou Aqui”

 
A relevância desse filme não está apenas em esclarecer o passado de tirania em nosso país, mas também na luta por justiça, para que isso não volte a acontecer no Brasil!


 
 
Tom Zé – Jimmy Renda-se (1970)

 

O filme já começa com o melhor disco do Tom Zé, de 1970, em uma cena muito frenética, com a juventude numa boa. É incrível como esse rock, Jimi Renda-se, traz tantas camadas de significado para a cena: não só pela guitarra distorcida e a bateria descompassada, que combinam com a energia da juventude e da ação, mas também pelo que a letra da canção expressa.

A voz de alguém que incorpora elementos estrangeiros num tom de deboche faz uma crítica à relação de consumo com o imperialismo norte-americano. Enfim, são muitas camadas de sentido que são interrompidas por uma blitz militar no viaduto, já dando o tom do que viria depois no filme.

Carlos, Erasmo – É preciso dar um jeito meu amigo

Agora, esse clássico que todo mundo ama, o melhor disco do Erasmo, cuja letra diz tudo: um apelo à resistência diante do que estava acontecendo no Brasil e à busca por um caminho para revolucionar, para dar um jeito.

Uma situação que, naquela época, era completamente insustentável para qualquer mente pensante. No filme, a música aparece quando a família Paiva está construindo a casa onde morariam após o pai ter voltado do exílio, representando o desejo de continuar vivendo e lutando pelo Brasil. A música também aparece nos créditos, mostrando a casa do Rio dos Paiva vazia, simbolizando como a ditadura interrompeu vidas de famílias brasileiras por meio da força, da tortura e do assassinato. 

Juca Chaves – Take me back to Piauí (1970) 

Esse outro compacto também é muito importante: do comediante Juca Chaves. Take Me Back to Piauí faz uma crítica bem-humorada ao abandono do projeto de desenvolvimento do Brasil que Rubens Paiva defendia como político. Rubens e o presidente Jango eram do Partido Trabalhista Brasileiro e lutavam pelos direitos dos trabalhadores rurais, por projetos de moradia popular nas cidades, melhorias na educação… Enfim, esse projeto ficou conhecido como as Reformas de Base, que, se não tivessem sido interrompidas pelo golpe militar, poderiam ter nos levado a ser uma “Paris Tropical”, como brincou Juca na letra da música. É interessante ver a família Paiva dançando essa música super crítica, mas é aí que está a genialidade de Juca Chaves, que ensinou o Brasil a se divertir através do deboche, apesar dos tempos sombrios. 

Gal Legal – Acauã (1970) 

Agora, esse disco genial da Gal, Legal, que já carrega um significado forte, né? Afinal, era uma época em que toda arte precisava da aprovação da censura para ser lançada legalmente no Brasil. A música que toca é Acauã, uma releitura do poeta Zé Dantas, que conta a história do pássaro que dá nome à canção. Quando ele canta no sertão, é sinal de mau presságio, de seca. A música aparece no filme no momento em que a filha mais velha dos Paiva está arrumando as malas para sair do país, numa época em que o AI-5 estava se consolidando de vez, anunciando o mau presságio que se concretizaria.

Mutantes / Tropicália – Baby (1968) 


Claro que não podia deixar de falar dos Mutantes, né? A banda símbolo do tropicalismo. Essa música do Caetano, presente nesses dois discos, representa perfeitamente o espírito transgressor do movimento: incorporando elementos de influência estrangeira, seja musicalmente, com a guitarra elétrica, seja nas letras, que enumeram hábitos associados à cultura de massa. A música sugere uma adesão à modernidade pautada pelo consumo e pela influência norte-americana. Através disso, os tropicalistas propuseram um olhar crítico, irônico e questionador sobre essa influência, que é, ao mesmo tempo, cruel, incontornável e desejada. Afinal, você PRECISA, você PRECISA consumir para ser feliz, para fazer parte. No filme, essa música aparece no vídeo da Veroca no exterior.

Tem mais algumas músicas importantes para entender o Brasil que aparecem no filme, mas é muito assunto para um só vídeo. 

Mas uma música que eu acho que escolheram perfeitamente bem para ilustrar a passagem do tempo no filme é Fora da Nova Ordem Mundial, do Caetano Veloso.

Caetano Circuladô – Fora da ordem (1991)

A letra é construída com imagens do Brasil que escancaram suas contradições e problemas. O verso “Aqui tudo parece que ainda é construção e já é ruína” resume essa ambiguidade: o Brasil está sempre em um ciclo de progresso interrompido, onde o desenvolvimento e o caos coexistem. Caetano cita figuras da cultura pop e da política (de Michael Jackson a Lampião), mostrando um Brasil que absorve e reinterpreta tudo, mas sem resolver seus dilemas estruturais. Nos anos 90, o país estava em outro momento: a ditadura já havia acabado, tínhamos uma nova Constituição. No filme, se passaram X anos, e a família Paiva estava indo finalmente receber o atestado de óbito do pai, até então tido como desaparecido político. Mas esse atestado veio acompanhado de anistia para os torturadores, que nunca foram punidos.

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